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O novo ciclo do MCMV e o redesenho do mercado imobiliário brasileiro

  • 18 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Como mudanças regulatórias, aumento do teto e novos players estão reposicionando o setor — e o que isso significa para incorporadoras, investidores e captação imobiliária.



O mercado imobiliário brasileiro entrou em uma nova fase — e o centro dessa transformação voltou a ser a habitação econômica. Nos últimos trimestres, incorporadoras registraram melhora relevante em indicadores operacionais e financeiros impulsionadas pela demanda por imóveis novos, sustentada principalmente pelo programa habitacional federal.


Esse movimento não ocorreu isoladamente. Medidas recentes ampliaram a base de compradores ao aumentar a renda disponível das famílias e facilitar o acesso ao financiamento. A isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, por exemplo, permite que mais pessoas tenham capacidade de pagamento para assumir parcelas imobiliárias, além de trazer para dentro do sistema compradores que antes estavam parcialmente na informalidade.


Os efeitos aparecem rapidamente nos números. Os lançamentos dentro do programa cresceram 32% até setembro e as vendas avançaram 7,6% no período. Ao mesmo tempo, o programa já representa mais da metade do mercado imobiliário nacional, confirmando que deixou de ser um segmento específico para se tornar o principal motor do setor.


O aumento do teto mudou a viabilidade dos projetos


Uma das mudanças mais importantes foi a atualização do valor máximo dos imóveis financiáveis. O novo limite pode chegar a R$ 275 mil em grandes cidades, elevando o poder de compra das famílias e destravando empreendimentos que antes não fechavam conta econômica.


Nos últimos anos, o aumento dos custos de terreno, mão de obra e materiais havia tornado muitos projetos inviáveis dentro dos parâmetros anteriores do programa. A revisão corrige essa distorção e volta a alinhar preço de venda com custo de produção.


Além disso, compradores passam a contar com subsídios adicionais entre R$ 2 mil e R$ 9 mil e menor valor de entrada em algumas regiões, reduzindo a barreira inicial de aquisição. Na prática, mais famílias passam a conseguir comprar — e mais empreendimentos passam a ser lançados.


Construtoras mudaram de estratégia


A consequência mais relevante talvez não esteja apenas no crescimento das vendas, mas na mudança de comportamento das empresas. Incorporadoras tradicionalmente focadas em médio e alto padrão passaram a investir no segmento econômico, seja criando marcas próprias, seja por meio de parcerias.


Um exemplo claro é a criação de uma empresa dedicada exclusivamente ao segmento popular para atender a demanda aquecida e diversificar o portfólio, iniciando operações já com centenas de unidades e novos lançamentos planejados. Isso mostra que o econômico deixou de ser um nicho: tornou-se estratégico.


O motivo é simples. Enquanto o crédito imobiliário mais caro reduz a velocidade de vendas no médio e alto padrão, o segmento subsidiado mantém previsibilidade e liquidez. Unidades prontas chegam a vender muito menos que no ano anterior em alguns casos, enquanto lançamentos performam melhor.


O impacto estrutural no setor


O mercado passou a operar com duas dinâmicas diferentes. No econômico, há volume, previsibilidade e rapidez de vendas sustentados por política habitacional ativa. Nos demais segmentos, há seletividade maior do comprador e maior dependência do custo do crédito.


Isso altera a estrutura de financiamento do setor. Com projetos mais escaláveis e com menor risco comercial, cresce a necessidade de funding ágil para acelerar lançamentos e aproveitar a janela de demanda. Ao mesmo tempo, investidores passam a enxergar o segmento popular como um fluxo mais previsível de retorno.


O que esperar do próximo ciclo


As sinalizações indicam continuidade da política habitacional. O orçamento do FGTS para habitação deve chegar a R$ 160,2 bilhões e novas revisões do programa são esperadas. O objetivo é ampliar o acesso à moradia, mantendo a demanda ativa por vários anos.


Esse cenário indica que o crescimento do setor não depende apenas da taxa de juros, mas de uma estratégia pública de estímulo à habitação somada à capacidade das empresas de operar em escala.



O Minha Casa, Minha Vida deixou de ser apenas um programa social relevante para se tornar o eixo econômico do mercado imobiliário brasileiro. Ele reorganizou estratégias empresariais, atraiu novas incorporadoras para o segmento, aumentou previsibilidade de vendas e redefiniu a lógica de financiamento do setor.


O próximo ciclo do mercado não será determinado apenas por crédito barato, mas pela capacidade de estruturar produção habitacional em grande escala. Nesse contexto, quem conseguir conectar capital, desenvolvimento e velocidade operacional estará melhor posicionado para capturar o crescimento estrutural da habitação no país.

 
 
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